Vai, vai Abel. Em paz e com Deus no coração

Quarta-feira, dia da Taça de Moçambique. Black Bulls e Ferroviário, no campo do AFRIN. Abel chegou às escondidas. O atraso porém denunciou-o. O jogo decorria no seu quarto minuto. Estava mais abatido do que nunca. Delgado, ao mesmo tempo que mais loiro até no bigode. Estava diferente do habitual: cara fechada, a franzir o nariz para qualquer saudação. Um pouco preocupado. 

 

Com o jogo. Com a base de dados de 70 seleccionáveis. Com o jogo contra Madagáscar ao virar da esquina. Pensamos nós. Mas não éramos íntimos o suficiente para buscar certezas. 

 

Abel Xavier, ou então Faizal por imperativos religiosos, estava ali, misturado com o público. Embora convidado pelos anfitriões, dispensou o seu habitual lugar na tribuna VIP para estar nas bancadas. Como mais um, entre os demais. Estava ladeado por, curiosamente, Victor Matine e uns dois partidários seus da arte anónima. 

 

Ao intervalo do jogo, tentamos uma tímida aproximação. Fizemos lobbie com o por nós conhecido de outras latitudes, Matine. Conseguimos, por fim, o acesso a Abel. Partilhamos amendoim no mesmo espaço. Do contacto certificamos que algo não estava nada bem…mesmo! 

 

Esses gajos não me dizem nada“, suspirava curto e grosso, sem minúcia. Só mais tarde entendemos o teor da conversa quando um dos seus acompanhantes contextualizou: “[…] e depois estamos perto de jogar contra um Madagáscar galvanizado com a recente presença no CAN“. Perante o discurso, agitou as mãos como quem diz: já viste? E sentou-se, de seguida, para no entanto não prolongar o lamento do silêncio dos seus gajos. Continuou com o interminável descasque de um amendoim torrado que nunca mais foi à boca. Acabou despedaçado, para o chão. 

 

O insólito de fazer chorar 

 

Mesmo dia, à noite, no Estádio Nacional do Zimpeto. Com outra vestimenta e cabelo mais liso do que aquele que levara ao AFRIN. Desta vez sem o bigode. Tudo o que o rodeava o incomodava. Desconfiava de todos. Até das inúmeras sombras projectadas pelos holofotes daquele majestoso estádio. Comportava-se como se a sua respiração estivesse, por aquele momento, por um fio. Isolou-se num canto da tribuna para não desenvolver contacto com nenhum espírito. 

 

Deixou-se fotografar por Eliseu Patife, um fotógrafo com o qual colaboramos. Mas o intimou momento após a instantânea, para a repreensão. “Da próxima vez peça para me tirar uma foto. Eu isso não admito!“, exibiu uma autoridade nunca vista, completamente diferente daquela que fitou no Zimpeto, num dia desses, depois de enfrentar a Zâmbia. Terminantemente algo não estava bem com Abel

 

E a coisa veio agora a confirmar-se: finalmente deixa de ser selecionador nacional devido aos maus resultados que não levaram os “Mambas” ao Campeonato Africano das Nações, Egipto2019, tal como confessou o presidente da Federação Moçambicana de Futebol, Alberto Simango Júnior. E o disse em conferência de imprensa havida na segunda-feira, 22 de Julho. 

Afinal, Abel ou Faizal por imperativos religiosos, farejava o seu fim como o tal que veio para aqui fazer o que nunca foi feito. Pressentia que o seu reinado estava mais perto do fim. Um reinado que, em abono da verdade diga-se, foi de todo inglório.  

Por isso que, neste momento de pesar, o dedicamos o cântico que ele tanto ouviu naquela tarde no AFRIN: Famba na yesu, famba na yesu mbilwine. Ou seja, vai Abel. Vai em paz e com Deus no coração. 


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